Entrevista: Jamie Russell

Enquanto espero uma oportunidade para publicar a versão resumida dessa entrevista, adianto para os leitores do blog e quem acompanha o meu Facebook o material na íntegra de uma entrevista que fiz ano passado com Jamie Russell, escritor britânico, autor de Zumbis – O Livro dos Mortos, publicado pela editora Barba Negra (selo da LeYa Brasil).

Os zumbis são personagens que já são parte da cultura do terror em todo o mundo e são produzidos dezenas de novos filmes  anualmente sobre este nicho. Russell fez uma enorme pesquisa a respeito do tema e compilou tudo o que ele encontrou na forma de um livro, que inclui um guia bastante completo de filmes. A edição brasileira ainda ganhou um adendo – uma lista de produções sobre zumbis que já foram lançadas no país.

Sem mais delongas, leia a seguir a entrevista completa.

André Cavallini – O Livro dos Mortos está sendo lançado no Brasil e, por aqui, muita gente venera a chamada “Cultura Zumbi”. Como nasceu a ideia de escrever um livro dedicado a este universo?
Jamie Russell – Comecei a escrever anos atrás, perto de 2001, e o material foi publicado nos EUA e no Reino Unido em 2005. Quando comecei o livro, ninguém nesses países se importavam muito com os zumbis. O lançamento aconteceu antes da nova febre do tema, que veio com a chegada de Resident Evil – O Hóspede Maldito e Extermínio, filmes que estouraram mundo afora.

AC – E qual foi a resposta do público para o seu livro naquela época?
Russell – Honestamente, pensei que ninguém leria o meu livro, além de algumas pessoas. Mas as cópias foram sendo vendidas e com a renovação dessa “Cultura Zumbi”, o livro ficou bastante popular, tanto que está chegando ao Brasil.

AC – O que você acha da edição brasileira de O Livro dos Mortos?
Russell – Penso que os editores da Editora Barba Negra fizeram um trabalho maravilhoso para este lançamento. A edição brasileira tem um visual incrível, muito bonito – se é que podemos chamar imagens e fotos de pessoas mortas algo bonito! Espero que o público brasileiro goste do livro.

 AC – Qual foi o ponto principal da sua pesquisa para o livro? Qual a maior dificuldade que você enfrentou?
Russell – Acredito que assistir a tantos filmes foi o mais complicado. Imagine como foi difícil encontrar tantos títulos diferentes em DVD dez anos atrás. Hoje, grande parte foi restaurado e lançados novamente. No começo, eu vi a maioria em VHS. Levei um tempo danado para isso. E também foi complicado escrever, pois muitos dos filmes de zumbis são muito, muito ruins! Trata-se de um subgênero do terror que muitos iniciantes no cinema, com orçamento parco e pouca habilidade, escolhem como ponto de partida. Mesmo adorando filmes de zumbis, essa parte foi a mais chata.

AC – Você pensava que seu livro fosse fazer tanto sucesso e chegar a vários países?
Russell – Não! Eu sinceramente achava que meu livro fosse ser lido por umas 300 pessoas. Quando planejamos a publicação dele, meu editor me disse que seria uma boa começar com mil cópias. Hoje, já vendemos mais de 20 mil apenas entre EUA e Reino Unido. Foi um pouco de sorte também, pois quando eu havia acabado de escrevê-lo havia uma nova leva de fãs de zumbis nascendo – justamente na época em que George Romero estava lançando Terra dos Mortos nos cinemas. E nos anos seguintes, a “Cultura Zumbi” cresceu muito e rapidamente, com jogos, livros, quadrinhos e muitos e muitos filmes. Sendo eu um desses adoradores dessa cultura, escrevi o livro realmente como um fã, com aquilo que eu gostaria realmente de ler em um livro sobre o assunto. Nunca pensei que um dia fosse ser entrevistado por uma revista brasileira!

AC – Quais são seus filmes e diretores favoritos?
Russell – Essa é uma pergunta difícil! Eu simplesmente adoro qualquer coisa feita pelo George Romero, ele é o rei dos filmes de zumbis. Também gosto de As Uvas da Morte, Zumbi 3, Zombie – A Volta dos Mortos-vivos, The Video Dead, Noites de Terror e O Galeão Maldito e suas sequências. Mais recentemente, gostei muito do lançamento dos quadrinhos de The Walking Dead, que se tornou série de TV, de Zumbilândia – em especial a participação incrível do Bill Murray – e do espanhol REC.

AC – Como você acha que a “Cultura Zumbi” evoluiu desde o primeiro filme do subgênero até a presente avalanche produtos com o tema?
Russell – Vejo uma evolução em várias maneiras. O que eu amo sobre os zumbis é que eles ficam diferentes a cada nova Era. Nos anos 1930, os filmes norte-americanos sobre zumbis tinham a ver com etnia e religião; nos anos 1970, criticavam o consumismo; na década de 1980, eram dedicados ao terror relacionado ao corpo humano. O que é interessante é que nos últimos 10 anos tivemos mais filmes produzidos do que nos 80 anos anteriores juntos.

AC – Por que as pessoas são fãs dos mortos-vivos?
Russell – Acredito que seja porque estamos em uma época em que o zumbi parece ser o monstro perfeito. Por um lado, a sociedade nos faz sentir como se fôssemos insignificantes, mortos mesmo. Somos tratados como escravos pelos bancos, como idiotas pela mídia, em geral, e o governo não nos dá ouvidos. Por outro lado, vivemos em tempos de globalização e comunicação instantânea, e isso nos faz sentir como se fôssemos parte de uma massa enorme de corpos desligados uns dos outros. Também há o aspecto da religiosidade envolvido – seguir uma religião ou ser ateu. Nos EUA, há um grande crescimento no ateísmo e o zumbi é uma figura interessante para retratar uma visão menos poética da vida após a morte. Penso que acima de tudo isso também há uma parte de nós hoje que se sente lutando contra mortos vivos diariamente quando superamos as dificuldades de sobreviver, de uma forma figurada. Pode ser uma válvula de escape representar nossos sentimentos reais nas histórias de zumbis.

AC – Qual a importância das vídeolocadoras na divulgação e na disseminação da cultura cinematográfica, de modo geral, nos dias de hoje? Você considera ela tão importante quanto o cinema, culturalmente?
Russell – Esta é uma pergunta interessante. Hoje, ao menos no Reino Unido, as locadoras de filmes estão desaparecendo. Parece que grande parte do consumidor desse tipo de produto está locando filmes por meio da internet e pelo correio. E isso é estranho para mim, que cresci na Inglaterra durante os anos 1970 e 80, quando as primeiras vídeolocadoras surgiram. E foi nessas lojas onde me apaixonei pelos filmes de terror, com aquelas capas maravilhosas das fitas. Meus pais não me deixavam alugar filmes como A Morte do Demônio, mas quando eles já não podiam mais me impedir, fui atrás de todos os filmes que não pude ver quando garoto. As salas de cinema da região em que cresci eram muito parecidas com as chamadas Grindhouses dos EUA, pequenos e escuros, mas que exibiam muita coisa boa. Acredito que toda essa “facilidade” que as pessoas têm de encontrar entretenimento, apesar de ser bastante útil para muita coisa, atrapalha um pouco, tirando aquela emoção da descoberta de um novo filme. Antigamente, ver um filme era praticamente uma aventura. Hoje, com dois cliques você compra algo no Amazon ou aluga no Netflix.

AC – Com produções em 3D e Imax nos cinemas e o Blu-ray em casa, você acredita que seremos capazes de sentir hoje a mesma emoção que sentíamos antigamente ao ver um filme de zumbis? Essa evolução é positiva ou negativa?
Russell – Não creio que vejamos um filme de zumbis em Imax. São monstros de baixo orçamento, nada que um grande estúdio queira colocar em Imax. Todo esse progresso é claramente positivo. Muitos dos filmes que estão chegando em Blu-ray eu tive que garimpar nas lojas e nos sebos antigamente. Fora que a qualidade de imagem é ótima, bem distante daquela imagem granulada e suja das velhas fitas VHS. Apesar de eu pensar que aquela emoção, como disse antes, se perdeu, qualquer evolução positiva é bem-vinda! Acho que estou parecendo velho, apesar de ter 30 e poucos anos ainda. Vou parar de reclamar! Adoro a ideia de poder acessar a um site na internet e encontrar informações e vídeos de filmes que pareciam ter se perdido no tempo. Como fã e historiador de cinema, adoro o YouTube e o IMDb.com, eles são verdadeiras revoluções!

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